Coletânea

    

Respirava montanhas

e respingava morenezas

em tudo que via,

aquele homem de barro.

 

 

Lia alpendres à tardinha,

comunicava ações às aves de rapina

e, quando acordava, ninava o café

na pequena cozinha de tirna e lembranças.

 

 

Quando a enxada chambocava a terra,

mané de barro coloria as espigas

sementeadas ainda nos grãos de milho

 

e descansava como um balaio de despensa,

cheio de aguardos e cores novas.

 

 

Quando estava sozinha à noite,

Maria punha os meninos na cama

e costurava a noite,

como se fosse um sapato de bebê.

 

 

A chuva penteava a tarde

e dizia coisas nos ouvidos das açucenas.

 

elas se enamoravam da inocência líquida da água

e diziam-se em paz com os selos da chuva

que caía e ninava a noite.

 

 

Vários homens a caminho da olaria

bicicletavam a estrada

toda cheia de pedrinhas,

miudinhas como dedo mindinho

de menino recém-nascido.

 

 

Na cacimba profunda

pairava água doce.

 

na casinha profunda

flutuavam bebês,

à espera do resgate da água                 

 

(da cacimba profunda).

 

 

Nas paredes de barro

Zé do né se encostava

e emprestava gentilezas,

dentro da tarde cinzenta.

 

Ele sabia,

o café não tardava

e as casas de marimbondos

se preparavam rápidas

para suas histórias de trancoso.

                                                                          

 

Toda vez que a lenha estalava no fogo

o cheiro de café gritava,

acordando todo mundo.

 

Mulheres lavavam roupa

no olho d’água,

cantando a brancura que renascia.

 

                                                               Wescley Gama