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Recanto Poético

Recanto Poético

Comentário sobre a poesia de Charles Bukowski
   

Dizem que a poesia é um discurso sobre a verdade. Até que ponto o que se denomina poesia faz de sua matéria a vida, para alcançar essa verdade que se estende ao discurso, é a questão que me ficou após a leitura dos poemas de Charles Bukowski.

É o tipo de leitura da qual não se sai ileso, por que o próprio poeta, ao transformar o vivido em matéria explícita da poesia acaba por se enredar nos poemas, como se através deles se fizesse representar para apresentar uma imagem. O poeta como um protagonista dos poemas sobre a gama explícita das emoções, numa ambiência marcadamente masculina e transgressora. Esse é Bukowski!

Uma poesia do excesso no papel e na vida. O álcool, as mulheres, o sexo, a marginalidade subjetiva e social assumida.

Há um tom de desilusão que oscila entre a ironia e o cinismo em sua escrita. Bukowski é um poeta que permanecerá vivo pelo sabor rascante e etílico dos poemas que escreveu.

É como um ator, que acaba salvo pelo humor de um improviso. Era um boêmio e rebelde, e um muito de sua obra se fundamenta no testemunho como uma plataforma para a arte. Seus versos retiram do testemunho uma sinceridade aplicada à toda prova na poesia.

Mas é preciso saber que escrever poemas não é o mesmo que escrever um diário. Nos poemas, demonstra Bukowski, vão sangue, carne, perdas, apostas... e no caso o álcool.

 

"O cavalo que possuo e o eu que possuo
ficaremos azuis maravilhosos e limpos
de novo
e eu sairei e
esperarei por você."

Charles Bukowski

 

 Vai a própria vida inserida no texto e como se dá conta de vivê-la. O poeta como um corpo estranho alojado na trama muscular da existência.
Ele prova que um bom antídoto contra a perplexidade é a ironia; que não desconhece as diferenças. Como numa entrevista onde reproduz uma conversa com dois drogaditos, adeptos de um outro objeto que não a bebida. Ele não cessa de estranhar e escarnecer dos maneirismos dos sujeitos, como uma licença poética em ato; só depois o assunto retornaria em versos.

Por influência da idéia de ficção, é associado aos poetas o fingimento na poesia, a capacidade ou necessidade de extrair poesia do encontro com a vida. Sempre pensei , do meu lado, que somos sempre prisioneiros do nosso próprio estilo. Não adianta fingir! Bukowski o sabia.

Bukowski teria consciência de sua diferença, de sua impossibilidade em corresponder ao oficialmente propalado e difundido como desejável. Portanto, algo lhe seria impossível, a conformidade.

O estilo em Bukowski, é marcado pela aproximação entre a poesia e o próprio modo de vida. Algo sobre o quê pode não se ter tanto domínio, a não ser pela escolha de uma forma própria de se apresentar. E Bukowski tinha a poesia, a literatura. Escrever a vida e deixar-se escrever por ela. A vida, no feminino!

E para os poetas em geral, não se trataria sempre dessa mesma questão, assumir que a escrita é uma forma de mediação com a vida, pelo uso de sua matéria-prima, mesmo que passe pela desilusão? Até que a própria desilução alce o patamar de um ideal?

Trata-se de uma tragédia repetida na vida dos poetas. E cada um inventa um jeito de contar. Alguns ocultando, velando o tema central de seu amor. Bukowski escancarando.

Bukowski é o ícone dos marginais, um paradoxo americano, um perdedor/ganhador. Um apostador inveterado e escritor glorificado por que escreveu a vida em sua própria língua e na própria pele.

É o suficiente para definir um estilo, na vida e na literatura.

    Max S. Moreira