A Beira D'Agua

 

 

 

 Aproximadamente 65% da massa de um corpo humano é constituída de água, entretanto os corpos continuamente perdem esse líquido de diversas maneiras: através da urina, suor, dejetos sólidos, e até mesmo pelos pulmões expirando. O corpo humano exige um constante suprimento de água para que possa permanecer saudável. Sem água, a maioria das pessoas morreria em duas semanas, e se o ambiente fosse muito quente ou a pessoa estivesse executando algum trabalhando físico intenso, a sobrevivência se limitaria a apenas dois ou três dias.

  Visto pelo lado de fora, o planeta deveria se chamar água. Com algumas "ilhas" de terra firme, cerca de 2/3 de sua superfície são dominados pelos vastos oceanos. Os pólos e suas vizinhanças estão cobertos pelas águas sólidas das gigantescas geleiras.

 A pequena quantidade de água restante divide-se entre a atmosfera, o subsolo, os rios e os lagos.Estimam-se em cerca de 1,35 milhões de quilômetros cúbicos o volume total de água na Terra.

 

Acontece que, 97,5 % da Água do planeta é salgada e está nos Mares e Oceanos. 0,007 /% é doce encontrada em rio , lagos e na atmosfera de fácil acesso para o consumo humano. Durante milênios a água foi considerada um recurso infinito.

    A generosidade da natureza fazia crer em inesgotáveis mananciais, abundantes e renováveis. Hoje, o mau uso, aliado à crescente demanda pelo recurso, vem preocupando especialistas e autoridades no assunto, pelo evidente decréscimo da disponibilidade de água limpa em todo o planeta.

Recurso natural de valor econômico, estratégico e social, essencial à existência e bem estar do homem e à manutenção dos ecossistemas do planeta, a água é um bem comum a toda a humanidade.

  O Brasil detém 11,6% da água doce superficial do mundo. Os 70 % da água disponíveis para uso estão localizados na Região Amazônica. Os 30% restantes distribuem-se desigualmente pelo País, para atender a 93% da população.

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Já estamos vivendo momentos de muita escassez. A população mundial ultrapassa 6 bilhões de habitantes (1). Quanto maior o número de famintos, maior será a produção de alimentos necessários para saciar a fome. Levando em conta os recursos naturais que suprem as necessidades básicas humanas, existe um dos elementos primordiais à vida: a "água". O homem é um ser dominante. Proliferado pelos quatro cantos do planeta. A existência dos seres humanos está vinculada a um pequeno ou grandes mananciais hidrográficos. É possível perceber isso ao longo da história das civilizações, os grandes rios, como: Nilo (egípcia), Tigre e Eufrates (mesopotâmia), Jordão (hebreus), Huang Ho e Yang-tsé Kiang (chineses) (2). Os rios são fontes de alimentos e servem como navegação, ocupam posições estratégicas, desenvolveram as civilizações como pontos geopolíticos e de sobrevivência. O homem sabe que a água tem que estar presente quando ele leva a sua dominação em qualquer território, e que sendo abundante e que satisfaça à sua sociedade, terá por um longo período, uma preocupação ínfima.

Muitos conflitos mundiais deram-se por motivos de domínios de mananciais hidrográficos. Não existe a mutualidade de recursos entre os povos. Ou o país tem ou não tem, e aqueles que não a tenha, procuram prover de outras fontes de riqueza para adquiri-la. Fala-se de escassez de água o tempo todo. Parece absurdo falar de escassez, com um planeta tão abundante. Porém mesmo com seus 361 milhões de Km² de superfície com água, ela é salgada e a sua dessalinização é cara. A apropriação dos mananciais hidrográficos caracteriza uma forma indébita com a natureza, que não se sustenta com uma renovação deste recurso, visto que o tempo de renovação é superior ao de sua degradação.

A apropriação privada da natureza é entendida como uma relação de negatividade, na obra de Valter Casseti, "Ambiente e Apropriação do Relevo": "A forma como os homens se relacionam com a natureza depende fundamentalmente da relação de propriedade das forças produtivas". Ainda na citação de Casseti, em que Jean Jacques Rosseau, em 1755, já observava que "...a corrupção das sociedades civilizadas começa no momento em que surge a propriedade privada, momento esse que se refere à conversão do espaço (3) em "mercadoria" (expressão formal do valor de troca)". "À medida que o caráter da propriedade privada é desenvolvida (apropriação privada da natureza), o acúmulo de capital se torna conseqüência, o que além de responder pelo processo de degradação ambiental, responde pelo antagonismo de classe".

"O agravamento dos problemas ambientais nasce, portanto com as relações de propriedade privada e os antagonismos de classe, responsáveis pela alteração da raiz da estrutura social e, por conseguinte, das relações entre o homem e a natureza" (Casseti, 199, p 25). É com esse agravamento ambiental, pelo qual, países que possuem no seu território grandes mananciais hidrográficos, manifestam-se sua soberania nos seus limites territoriais. Pois, os diversos fenômenos meteorológicos são conseqüências da apropriação indevida dos recursos naturais.

Humanizar, ou tomar para si.

 Quando as fontes de recursos de países desenvolvidos acabam, estes se voltam para países como Brasil, que é rico e está numa posição geograficamente localizado na intertropicalidade. Temos grandes diversidades, como: Amazônia, Pantanal, Cerrado etc. Mas durante o expansionismo colonial autores como: Alfred Tayer Mahan e Harold J. Mackinder demonstraram através da geopolítica, a receita de dominação através do preconceito racista, sendo possível perceber em suas obra: "... a desigualdade a hierarquia das raças fundamenta uma desigualdade e uma hierarquia das civilizações do ponto de vista de sua moral e de sua organização; a civilização européia e sua caçula americana são superiores aos outros, o que fundamenta o direito a expansão e seu dever de expropriação e conversão dos povos inferiores; o mundo é um combate, a luta é a essência da vida e das relações entre povos da terra. A civilização ocidental vive sob ameaça dos bárbaros, ela deve sua sobrevivência a pujança de sua força física organizada".(4)

 Esses preceitos de Mahan mostram a totalidade do pensamento repugnante de sua política.

Para Mackinder o grande "pivô geográfico da história" era a vasta zona da Eurásia. Hoje, o "pivô geográfico da história" deixa de ser essa área no hemisfério norte "Eurásico", passando a ser territórios abundantes de recursos naturais, com potencialidades hidrográficas, florestas imensas e clima tropical. A ciência e a tecnologia caminham paralela com o pensamento humano, pois a primeira é conseqüência da evolução do pensamento científico. Assim sendo, os pensamentos de Mahan e Mackinder, não são aplicáveis neste contexto histórico, mas apenas como memória do pensamento geopolítico, autoritário que desencadeia ações terroristas pelo mundo, que também não deixa de ser uma reação às ameaças do militarismo das grandes potências. Contudo, como todo império tem seu momento de conquistas, glorias, auge, também vivencia declínios, pela soberba hierarquização de seus povos e "Um crime contra um animal, é um crime contra a humanidade", assim, no século XV, como um pensamento profético, escrevia, Leonardo da Vinci.

O Futuro...

Hoje, o mundo tem 6 bilhões de habitantes. Mas para uma população 3 vezes maior, num curto espaço de tempo, a água será um grande objeto de valor e fonte de riqueza para quem a possui.

O Brasil, com seu vasto território e abundantes mananciais, concentra grandes volumes hidrográficos do planeta é um prato cheio para uma população sedenta e claro o vasto território proporciona a vontade unificada, de nações em exigir a "humanização" desses mananciais.

O governo brasileiro terá de imediato fechar e controlar a entrada de imigrantes no país. Pois o adensamento populacional no planeta só tende a crescer mais ainda. Não há controle desse crescimento demográfico que garante uma diminuição de nascimentos. O território brasileiro é uma fonte de entrada de imigrantes e do poder político de potências estrangeiras. A escassez de alimentos e ainda falta de água poderá gerar conflitos. Pode-se matar por falta desses recursos. É necessário vigiar as fronteiras, a não ser que exista uma mutualidade de riquezas entre nações. Se compararmos a população mundial com a superfície da terra, temos:

Superfície da Terra (5)

Total:.................... 510.000.000 Km²

Oceanos:.............. 361.000.000 Km²

Continentes:........ 149.000.000 Km²

População:........ 7.000.000.000 habitantes

Dividindo a superfície dos continentes pela população mundial, temos 24.833,33 m² por habitante.

Se hoje temos aproximadamente 24,83 m² de terra por habitante, imagine a população do planeta duplicada ou triplicada, sedenta, faminta, rios degradados e as fontes de recursos esgotados. O que acontece com uma nuvem de gafanhotos numa plantação, ou numa mata?. A destruição total. Agora imagine que esta plantação seja a última fonte de comida para eles. Poderá haver um desenvolvimento canibal entre eles. E o homem não está excluído dessa dramática situação.

 Quando se mata para obter outro bem ou produto, o canibalismo já estará existindo. Não se trata de profecia, nem tão pouco de premonição, mas de uma alerta para a humanidade, que não dá a menor importância para seu mais importante bem de sobrevivência: "a água".

É necessária uma análise e uma melhor política de recuperação dos mananciais hidrográficos do mundo. É melhor pensar numa política de melhor manejo dos mananciais hidrográficos dentro do território nacional. Pode ser possível criar um organismo semigovernamental, dotado de capacidade de captar recursos do fundo de participação dos municípios. Empresas nacionais e estrangeiras contribuiriam para recuperação de áreas degradadas, integralizando um limite de proteção ambiental.

Hoje, os fundos de participação para utilização em recuperação de áreas degradadas, não têm uma administração confiável, pois os desvios de recursos são possíveis e na maioria das vezes, não são repassadas para o objetivo real. Por causa disso, trabalhos de recuperação são demorados. Não pode haver demora na recuperação de áreas degradadas, nem tão pouco na parcialidade. Pois o meio ambiente deve ser tratado como questão holística. Ou então não sobrará nenhum ser humano para tomar essas medidas.

De alguma forma, ou o homem se insere na natureza para manter sua existência, ou as forças endógenas e exógenas (6) farão o papel de carrasco dos seres humanos. Isso tudo está no pressuposto de que "A natureza está no homem e o homem está na natureza, porque o homem é produto da história natural e a natureza é condição concreta, então, da existencialidade humana. Mas como o trabalho que está verdadeiramente tecendo a dialética da história, é ele que faz o homem entrar na natureza e natureza estar no homem". (Moreira, 1981, p. 81, citado por Valter Casseti, p.16 1991).

Reflexão ou Extinção

Leonardo Boff, teólogo e filósofo através de um artigo publicado no jornal "O Popular", em 17/5/2002, lembra-nos da necessidade urgente de praticarmos a justiça social e amar a grande mãe, a Terra. "Poderia o ser humano desaparecer por causa do seu poder destrutivo e de sua falta de sabedoria". Ainda no seu artigo ele cita a preocupação e predição de grandes nomes da ciência, como: Sthefen Hawking, que no seu livro O Universo numa casca de noz, reconhecendo que em 2600 a população mundial ficará ombro a ombro e o consumo de eletricidade deixará a Terra incandescente. Edward Wilson, no livro O Futuro da Vida, afirma: "O homem até hoje tem desempenhado o papel de assassino planetário... a ética da conservação na forma de tabu, totemismo ou ciências, quase sempre chegou tarde demais; talvez ainda haja tempo de agir".

 Para Theodore Monod com a reflexão titular de E se a Aventura Humana vier a falhar (2000): "Somos capazes de uma conduta insensata e demente; pode-se a partir de agora temer tudo, tudo mesmo, inclusive a aniquilação da raça humana. Christian de Duve, em seu conhecido Poeira Vital (1997), atesta que: "nosso tempo lembra uma daquelas importantes rupturas na evolução assinaladas por extinções maciças".

Contudo, extinções só são possíveis reconhecer-las através da consciência e entendimento. Felizmente possuímos o conhecimento, mas estamos exalando a sua essência. O papel do homem como "assassino planetário", sobressai como os maiores carnívoros que já viveram na Terra. Estamos no mais alto nível da cadeia alimentar e não só alimentamos de carnes e vegetais, mas também de consciência, virtudes, egoísmo, ganância, mau caráter, preconceitos... Oh! Pobre homem. Pare e reflita, pois é possível tornarmos seres supremos, mas de ações solidárias e fraternas com nossos semelhantes e com a "mãe" Terra, que num raio de 15 ou 20 bilhões de anos luz (7), estamos confinados e não conhecemos abundância, nem a essência da continuidade da vida em outro pequeno mundo, onde se encontra confinado.

A natureza do homem está neste momento na condição de apropriação. Mesmo com a necessidade de recuperação, é necessário desenvolver mecanismos que a pratiquem. Pois a própria natureza (8) é entendida. "Assim, admite-se que o meio natural é o substrato em que as atividades humanas respondem pela organização do espaço, conforme os padrões econômicos e culturais. Portanto, quanto maior o avanço científico-tecnológico de um povo, menores serão as imposições do meio natural e maiores as transformações acontecidas, o que implica o próprio comportamento ambiental" (Casseti, 1991, p 19). O homem hoje é um ser proliferado pelo planeta.

Contudo, necessita do meio ambiente para sobreviver ou extingue-se como qualquer outro ser. Se o homem possui inteligência, capacidades psíquicas de desenvolver paliativos de sobrevivência; vamos manter nossa capacidade intelectual e preservar aquilo que necessitamos. Se somos também natureza, ajudemos a natureza a preservar-nos, ou então, ela de alguma forma nos excluirá do nosso habitat.

Com uma população mundial ultrapassando 6 bilhões, os problemas ambientais, já estão numa escala quase irreversível. Ou ajudamos a natureza renovar e inverter a situação, ou então a degradação acompanhará proporcionalmente o adensamento populacional do planeta. Independentemente da multiplicação dos povos, torna-se necessário e essencial a preservação e recuperação dos mananciais hidrográficos. A água é um fator de vida e de continuidade. A renovação dos recursos naturais depende do comportamento e da utilização desses recursos pelo homem. Os povos têm o direito desse mecanismo de sobrevivência. Esse mecanismo move o poder do território de quem o possui. Assim a geopolítica novamente insere o fator de dominação de quem o possui, persistindo a desigualdade antagônica às manifestações de humanização dos povos e de seus territórios.

(*) Arnóbio Vieira Souza é estudante do 6º período do curso de Geografia da Universidade Católica de Goiânia (UCG).

 Arnóbio Vieira de Souza

(1) IBGE - Censo de 1999.

(2) José Herculano da Silva, José Marcos Araújo, Editora Nova Cultural, 1999, Vestibular 99, Geografia p. 12, ISBN Obra Completa 85-13-00840-0.

(3) Uma das categorias da Geografia; "para Rui Moreira é uma construção teórica da paisagem, onde a sociedade organiza-se através dos objetos, com tudo que é visível dos nossos sentidos e o invisível de nossa análise teórica da organização"; Para Milton Santos, "Morada do homem, obra do Trabalho", citado em Moraes, p. 123, 1985.

(4) Almirante Alfred Tayer Mahan, The Influence of Sea Power upon History, 1660-1783, Boston. Little Browna, 1895, 1. edition 1890.

(5) José Herculano da Silva, José Marcos Araújo, Editora Nova Cultural, 1999, Vestibular 99, Geografia p. 4, ISBN Obra Completa 85-13-00840-0.

(6) Endógenas, de dentro, ou do interior da terra, forças tectogenéticas, placas tectônicas; Exógenas – forças externas da terra, mecanismos morfoclimáticos ou efeitos meteorológicos, ou seja, ventos, chuvas nevascas... Em "ambiente e apropriação do relevo", de Valter Casseti – O Relevo na análise Geográfico-ambiental.

(7) 1 Ano Luz corresponde a 9,5 trilhões de Kilometros – Atlas Celeste. Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, 1997.

(8) A natureza se define, em nossa sociedade, por aquilo que se opõe à cultura. A cultura é tomada como algo superior e que conseguiu controlar e dominar a natureza. Daí se tomar a revolução neolítica, a agriCULTURA, um marco da História, posto que com ela o homem passou da coleta daquilo que a natureza "naturalmente" dá para a coleta daquilo que se planta, que se cultiva. (GONÇALVES, 1996, P 25-6), citado por Valter Casseti, em "ambiente e apropriação do relevo", 1991.

Bbibliografia

CASSETI, Valter. Ambiente e apropriação do relevo, Ed. Contexto, São Paulo, 1991.

RAFFESTIN, Claude, LOPRENO Dario, PASTEUR, Yvan. Geopolitique et histoire. Paris. Editions Payot Lausanne, 1995.

M


ACKINDER, Halford J. The Geographical Pivot of History. Ed. The Royal Geographical Society, Londres, 1969, 1. ed. 1904, p 30-31.

MAHAN, Alfred Tayer. L’interêt de l’Amérique dans la puissance maritime, presente et futur, Boston, 1890-1897.

MOURAO, Ronaldo Rogério de Freitas. Atlas Celeste, Ed. Vozes, Petrópolis-RJ, 1997.

 

Periódicos:

IBGE, internet: www.ibge.com.br

BOFF, Leonardo. Editorial de "O Popular", Goiânia, 17/5/2002.

SILVA, José Herculano da. ARAÚJO, José Marcos. Editora Nova Cultural, 1999, Vestibular 99, ISBN Obra Completa 85-13-00840-0.