O Sumiço da Carta de Caminha

    Por mais de três séculos, o principal e mais esplendoroso documento da descoberta  do Brasil permaneceu desconhecido – “praticamente sequestrado , de acordo com o historiador português Jaime Cortesão – no arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa.  Foi redescoberto em fevereiro de 1773 pelo guarda-mor do arquivo, José Seabra da Silva.  Ainda assim, quase meio século se passaria antes da carta de Pero Vaz de Caminha ser publicada pela primeira vez, pelo padre Manuel Aires do Casal, em sua “Corografia Brasílica”, editada em 1817.

Somente em 1900, porém, quando da comemoração do Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil, a carta voltaria a receber a atenção dos eruditos.  Oito anos mais tarde, Capistrano de Abreu lançou seu extraordinário estudo “Vaz de Caminha e sua Carta”.  Só então se revelou plenamente a agudeza das observações, a fragrância dos retratos, a vivacidade descritiva, precisão etnológica e a acuidade histórica daquela que pode ser considerada  a autêntica certidão de nascimento do Brasil.

No instante em que Caminha escrevia a sua carta em Porto Seguro, havia mais de meio século que os escrivães portugueses exercitavam e afinavam a arte de registrar os fatos de maior relevo ocorridos em suas viagens marítimas.  Praticamente nenhum desses relatos, no entanto, foi redigido por escrivães de oficio. Caminha seguia na frota de Cabral com a missão de tornar-se o escrivão da futura feitoria de Calicute.  Mas era mais do que isso: era escritor feito, homem de letras, requintado e perspicaz, em pleno domínio de sua arte.  O texto que Caminha legou à posteridade não apenas captura, com minúcia e fluência, o alvorecer de uma nação como constitui sua primeira obra-prima.

Ainda assim, a carta do mestre João – físico-mor da armada de Cabral – e a chamada “Relação do Piloto Anônimo” (publicada já em 1507) ficaram, de início, muito mais famosas que o relato de Caminha. Todos os documentos relativos à primeira viagem ao Brasil submergiram, porém, no mesmo ostracismo ao qual Cabral foi relegado, depois de se recusar a assumir a subchefia de uma nova esquadra que seria enviada para Índia.  Após seu desempenho na viagem de 1500, ele se julgava em condições de ser comandante de qualquer missão.

O terremoto que em 1755 abalou Lisboa também colaborou para o sumiço momentâneo da documentação. Por caminhos ainda mais misteriosos, a Carta de Pero Vaz chegaria até o Arquivo da Real Marinha do Rio de Janeiro, provavelmente quando da vinda da família real para o Brasil, em 1808. Em 1817, seria enfim publicada pelo padre Aires de Casal.

Pero Vaz de Caminha nasceu na cidade de Porto na quinta década do século 15.  Filho de família relativamente nobre, fora cavaleiro das casas de d. Afonso 5º, de d. João 2º e de d. Manuel.  Deveria ter cerca de 50 anos quando se juntou à frota de Cabral.  A carta que o imortalizou viria a ser um de seus últimos atos: quando a feitoria lusitana em Calicute foi atacada, em 16 de dezembro de 1500, entre os mortos em combate estava o profético cronista  do nascimento do Brasil.

O descobrimento oficial do país está registrado com minúcia.  Poucas são as nações que possuem uma “certidão de nascimento” tão precisa e fluente quanto a carta que Pero Vaz de Caminha enviou ao rei de Portugal, Dom Manuel, relatando o “achamento” da nova terra.  Ainda assim, uma dúvida paira sobre o amplo desvio de rota que conduziu a armada de Cabral muito mais para oeste do que o necessário para chegar à Índia.  Teria sido o descobrimento do Brasil um mero acaso?

É provável que a questão jamais venha a ser esclarecida.  No entanto, a assinatura do Tratado de Tordesilhas, que, seis anos antes, dera a Portugal a posse das terras que ficassem a 370 léguas (em torno de 2.000 quilômetros) a oeste de Cabo Verde, a naturalidade com que a nova terra foi avistada, o conhecimento preciso das correntes e das rotas, as condições climáticas durante a viagem e a alta probabilidade de que o país já tivesse sido avistado anteriormente parecem ser a garantia de que o desembarque, naquela manhã de abril de 1500, foi mera formalidade: Cabral poderia estar apenas tomando posse de uma terra que os portugueses já conheciam, embora superficialmente.  Uma terra pela qual ainda demorariam 34 anos, com as Capitanias, para se interessarem de fato.                                                                            

Na posse da nova terra, foi criada uma feitoria, que servia de ponto de aguada para a esquadra portuguesa. Em 1534, com a divisão administrativa do Brasil em Capitanias Hereditárias, Porto Seguro passou a ser sede da Capitania de Porto Seguro e doada a Pero do Campo Tourinho por Carta Régia de 27/05/1534, e por Carta Foral de 23/09/1534.

Com a chegada dos portugueses, iniciou-se a história escrita do Brasil e a mistura de culturas e raças. O Alvará Régio de 20/10/1795 criou a sede com a invocação de Nossa Senhora da Pena. Foi elevada à categoria de cidade através do Ato Estadual de 30/06/1891, pelo então presidente da província da Bahia, José Gonçalves. Teve como seu primeiro intendente ou conselheiro municipal o médico e professor Antônio Ricaldi

Porto Seguro foi sede de uma das 15 Capitanias Hereditárias com que o rei D. João III mandou dividir o imenso território do Brasil, numa incipiente tentativa de promover a sua colonização e administração. Curiosamente, a atual capital do Brasil, traçada por Lúcio Costa e emoldurada por fabulosos edifícios de Oscar Niemeyer, está dentro dos limites da então capitania de Pêro de Campo Tourinho, que aqui se instalou entre 1535 e 1547 com a família e mais umas centenas de portugueses. Desse tempo, Porto Seguro guarda a igreja da Misericórdia, o antigo paço e a igreja da Pena, cuja tradição faz remontar a 1503 uma imagem aí guardada, de São Francisco de Assis. 


Fonte: Secretaria de Turismo de Porto Seguro