Julio César

  Caio Júlio César (em latim Gaius Julius Caesar ;13 de Julho, 100 a.C.–15 de Março, 44 a.C.) foi um líder militar e político da República romana. As suas conquistas na Gália estenderam o domínio romano até o oceano Atlântico: um feito de conseqüências dramáticas na história da Europa. No fim da vida, lutou numa guerra civil com a facção conservadora do senado romano, cujo líder era Pompeu. Depois da derrota dos optimates, tornou-se ditador (no conceito romano do termo) vitalício e iniciou uma série de reformas administrativas e econômicas em Roma. O seu assassinato nos idos de Março por um grupo de senadores parou o seu trabalho e abriu caminho a uma instabilidade política que viria a culminar no fim da República e início do Império Romano. Os feitos militares de César são conhecidos através do seu próprio punho e de relatos de autores como Suetónio e Plutarco.

César, que era canhoto, nasceu em Roma no seio de uma antiga família de patrícios chamada Juliae, de acordo com a convenção romana de nomes. A sua ascendência, de acordo com a lenda, chegava a Iulus, filho do príncipe troiano Enéas e neto da deusa Vênus. No auge do seu poder, César iniciou a construção de um templo a Vênus Genetrix em Roma, em reconhecimento da sua "divina" antepassada. O seu pai era o homônimo Caio Júlio César e a sua mãe uma Aurélia da família Cottae. Enquanto jovem, César viveu no Subura, bairro popular de Roma.

 Os Julii Caesarii, embora aristocratas, não eram ricos para os padrões da aristocracia romana da época e por este motivo, nem o seu pai nem o seu avô atingiram cargos proeminentes na República. A sua tia paterna Júlia casou com o talentoso general e reformador Caio Mário, líder da facção populista do senado, os populares, por oposição aos optimates (conservadores). Para o fim da vida de Mário, as disputas internas entre as duas facções haviam chegado ao ponto de ruptura. Em 86 a.C. rebentou uma guerra civil interna, cujo resultado a longo prazo foi a ditadura (conceito romano do termo) de Lúcio Cornélio Sula.

  César estava ligado ao lado derrotado de Mário por laços familiares: não só era seu sobrinho, como era também casado com Cornélia Cinila, filha de Lúcio Cornélio Cina, aliado de Mário e inimigo pessoal de Sula. A sua situação não era portanto das mais brilhantes. Sula ordenou o seu divórcio de Cornélia, mas César recusou abandonar a jovem mulher e fugiu de Roma para evitar as perseguições. O ditador ficou desagradado com o desafio mostrado pelo jovem de vinte anos que mandou caçadores de prêmios atrás dele. Foi a intervenção da sua família e amigos influentes que o salvou da proscrição e execução certas. Mas apesar do perdão de Sula, César decide não ficar em Roma, partindo para a Ásia para realizar o seu serviço militar. Durante a campanha ao serviço de Lúcio Licínio Lúculo na Cilícia, César distinguiu-se pela sua bravura em combate e capacidades de liderança.

  Depois da morte de Sula em 78 a.C., César regressa a Roma e inicia a carreira como advogado no fórum romano e torna-se conhecido pela sua brilhante oratória. As suas principais vítimas serão os políticos corruptos e culpados de extorsão. Com o perfeccionismo que sempre o caracterizou, César não estava contente consigo e viajou para Rodes para estudar filosofia e retórica com o gramático Apolônio Molo. Mas durante a sua viagem, o seu barco foi abordado por piratas que o raptaram. Quando exigiram um resgate de vinte talentos de ouro, César desafiou-os a pedir cinqüenta, uma fortuna mesmo em moeda atual. Trinta e oito dias depois, o resgate chegou e César foi libertado depois de um cativeiro confortável onde fez amizade com alguns dos captores. De regresso à liberdade, organizou uma força naval, capturou o refúgio dos piratas e ordenou a sua crucificação.

 Em 69 a.C., Cornélia morre ao dar à luz, e pouco depois César perde a tia Júlia, viúva de Mário, de quem era muito próximo. Ao contrário do que era costume, César insistiu em organizar funerais públicos para ambas. O funeral de Júlia foi repleto de conotações políticas, visto que César fez questão em incluir a máscara funerária de Caio Mário na procissão, a primeira contestação pública das leis de proscrição de Sula da década anterior. E apesar de ser público o afeto de César pelas duas mulheres (cf. Suetônio), houve quem interpretasse a atitude como propaganda para as eleições que se avizinhavam, para o cargo de Questor (procurador).

 Cursus honorum

  César foi eleito Questor pela Assembléia do Povo em 69 a.C., com trinta anos de idade, como estipulava o cursus honorum romano. No sorteio subseqüente, foi-lhe dado o cargo na província romana da Hispania Ulterior, situada mais ou menos nos modernos Portugal e sul de Espanha.

 No regresso a Roma, César prosseguiu a carreira como advogado até ser eleito edil em 65 a.C., o primeiro cargo do cursus honorum a deter imperium. As funções de um edil podem ser equiparadas às de um moderno presidente da câmara municipal e incluíam a regulação das construções, do trânsito, do comércio e outros aspectos da vida diária. Mas o cargo poderia ser um presente envenenado, pois incluía a organização dos jogos no Circo Máximo, o que, dado o limitado orçamento público, exigia a aplicação dos fundos Júlio César, estátua por Nicolas Coustou, Palácio das Tulherias (1696).privados do edil. Isto era especialmente verdade no caso de César, que pretendia realizar jogos memoráveis para impulsionar a carreira política. E de fato aplicou todo o seu empenho para o conseguir, chegando até a desviar o curso do Tibre para uma representação no circo, mas acabou o ano com dívidas na ordem das várias centenas de talentos de ouro (o equivalente a vários milhões de euros atuais).

 No entanto, o sucesso como edil foi uma ajuda importante na sua eleição para pontifex maximus em 63 a.C., depois da morte de Quinto Cecílio Metelo Pio. O cargo significava uma nova casa no Fórum, a Domus Publica ("Casa Pública"), a responsabilidade por toda a vida religiosa de Roma e a custódia das virgens vestais. Para a vida pessoal de César, também significava o alívio do fim das dívidas. A sua estreia como pontifex maximus ("pontífice máximo") foi marcada por um escândalo. Depois da morte de Cornélia, César casara com Pompeia, uma das netas de Sulla. Como mulher do pontifex maximus e uma das mais importantes matronas de Roma, Pompeia era responsável pela organização dos ritos da Bona Dea ("Boa Deusa") em Dezembro, exclusivos às mulheres e considerados sagrados. Mas durante as celebrações, Públio Clódio Pulquer conseguiu entrar na casa disfarçado de mulher. Em resposta a este sacrilégio, do qual não foi provavelmente culpada, Pompéia recebeu uma ordem de divórcio. César admitiu publicamente que não a considerava responsável, mas justificou a sua ação com a célebre máxima: À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta.

 Em 63 a.C., César foi eleito pretor e Marco Túlio Cicero cônsul sénior na Assembleia das Centúrias. Foi um ano particularmente difícil não só para César, mas também para a República de Roma. Durante o seu consulado, Cícero revelou uma conspiração para destronar os magistrados eleitos liderada por Lúcio Sérgio Catilina, um aristocrata patrício frustrado pela sua falta de sucesso político. O resultado foi a execução sem julgamento de cinco proeminentes romanos aliados de Catilina. Isto era um anátema para a sociedade romana, que raramente executava os seus cidadãos e quando o fazia era apenas depois de complicados procedimentos judiciais. César opôs-se a esta medida com toda a sua oratória, mas acabou suplantado pela insistência de Marco Pórcio Catão, o Jovem e os cinco homens acabaram executados no próprio dia. Foi também nesta dramática reunião do senado que o caso amoroso de César com Servília Cipião foi trazido a público. Os opositores políticos de César acusaram-no de fazer parte da conspiração de Catilina, o que nunca foi provado nem prejudicou grandemente a sua carreira. Depois do seu complicado ano como pretor, César foi nomeado governador da Hispânia Ulterior.

 


 

 Júlio César, estátua por Nicolas Coustou,

Palácio das Tulherias (1696).