Sexta, 28 Dezembro 2012 23:40

Os Índios

Índios: primeiros contatos 

  

 Os índios do Amapá são os únicos do país que têm o privilégio de possuir todas as suas reservas demarcadas, sem invasões de garimpeiros, madeireiros e agricultores. Os primeiros contatos entre o índio e o europeu têm o registro de 1500, quando Pinzón esteve aqui. O Estado abriga vários tipos de etnias, distribuídos em 49 aldeias. São eles: Galibi, Karipuna, Palicur, Tiriyó, Kaxuyana, Wayana, Apalaí e Waiãpi. A história dos índios no Amapá é cheia de episódios épicos e pela própria história de nossa gente.

Apesar de atualmente extintos, os Tucuju atualmente são o carro-chefe para se desvendar um pouco da história do Amapá na fase pré-pinzônica. Parte de sua história já tentamos relatar, unindo ficção e realidade, em uma obra que tivemos a oportunidade de lançar em 1997. Como eles vieram ao Amapá? Pinzón teve contatos mais próximos com eles em 1513, quando retornava à costa das Guianas. Além dos Tucuju, Pinzón teria avistado também os Palicur, os Mayé, os Itutan e os Maraon. Outro contato aconteceu em 1604, quando o naturalista francês Jean Mocquet, em viagem de estudos à então Costa Palicúria, relatou uma guerra que teria ocorrido entre os Palicur e os Galibi, e a vitória da nação palicur com a ajuda dos Tucuju.

O domínio hispano-português (1580 a 1640) fez com que várias expedições chegassem até aqui, com intenções puramente de exploração. Nas construções de feitorias e postos de embarque, os colonos passaram a aprisionar gentios que, a princípio surgiam como promissora mão-de-obra para suas empresas. A intervenção dos missionários jesuítas convenceu a Coroa espanhola a expedir uma Carta-Régia datada de 15 de maio, estabelecendo a libertação de todos os índios escravizados pelos colonos portugueses.

Em 1639, um jesuíta espanhol (Cristobal de Acuña), realizando estudos cartográficos na margem guianense do Amazonas, consegue localizar um forte e uma missão portuguesa, com vários índios catequizados. Entre eles estavam os Tucuju. Essa missão ficava localizada, segundo Acuña, às proximidades de Almeirim e Macapá.

Além da pressão exercida pelos jesuítas, que proliferam numa espécie de binômio catequese-submissão ao colonizado, por volta de 1650 um fator muito forte iria dizimar parte dos grupos de missões: a peste bubônica, a malária e o sarampo.

De origem tupi, o vocábulo Tucuju é uma transliteração de Tucumã, espécie de palmeira natural da Amazônia (A. Princeps Var Sulphurium), com frutos graúdos e oleosos usados na feitura do vinho, licor e mingau. Colonizadores e aventureiros, no início do século XV, levantaram propostas visando a criação da Província dos Tucuju, com a tentativa de resgatar o nome, em homenagem aos habitantes primitivos, mas isso não passou do papel.

Arthur Cezar Ferreira Reis nos informa que a população desses índios na fase de maior ebulição demográfica, não passou de duas mil pessoas. Ele menciona também que esses Tucuju eram muito acessíveis e que, inicialmente fizeram amizade com os franceses possibilitando, assim, o contrabando e a descoberta de veios auríferos entre a região que vai do Oiapoque a Saint Georges. Isto, sem dúvida alguma, representou uma ameaça à soberania portuguesa que, no período das fortificações, construídas ao longo do vale do Oiapoque, provocou um verdadeiro êxodo dessa gente para o outro lado, onde se aculturavam e passavam a viver como "civilizados". Muitos desses índios e índias passaram a residir em Paris, como retribuição à "ajuda" que eles deram ao governo francês, na localização das minas de ouro.

O tratamento grosseiro atribuído a portugueses como Bento Maciel Parente e seus filhos, a essa gente, consistia em castigos excessivos, assassinatos, estupros, exploração doméstica e sexual das índias jovens, e foram propícios a que esses índios se fizessem amigos dos "louros de fala macia" (franceses), que ao contrário dos lusos, passaram a presenteá-los com aves (frangos, galos, perus) exóticas, espelhos, pentes etc, além de viagens a Paris, de onde sempre não retornavam.

Essas "vantagens" proporcionadas pelos franceses aos Tucuju tiveram forte repercussão na Coroa portuguesa que resolveu, com a ajuda dos jesuítas, mudar de estratégia. Assim, chegaram ao Cabo do Norte várias galeras, com presentes vindos até de outras colônias, constituídos de sedas, utensílios domésticos e pagamentos de vantagens a todos que conseguissem fazer dos Tucuju seus amigos.

Assim, a Carta Régia de 27 de novembro de 1699 estabelecia "que todos os portugueses deverão dispensar aos Tucuju um tratamento especial, levando-os a terá uma vida mais respeitosa". Estavam incluídas no referido documento, imposições de penas a quem contrariassem a ordem régia, assim como menções honrosas a quem cumprisse integralmente os preceitos da Carta. Mas já era tarde demais. A maioria dos Tucuju migrou para a região das Guianas, aculturando-se.

Os que ficaram, os mais velhos, foram desaparecendo aos poucos até se extinguirem completamente, em 1758.

 

Karipuna

 

A maior parte da população indígena que atualmente se define como Karipuna encontra-se nas margens do rio Curipi, principalmente no seu baixo e médio curso, na Área Indígena do Uaçá. Além das quatro aldeias maiores e principais, Manga, Espírito Santo, Santa Isabel e Açaizal, existem várias localidades residenciais dispersas ao longo do rio Curipi: Zacarias, Inglês, Mahipá, Txipidon, Paxiubal, Bastião, Campinho, Kutiti, Tauahu, Xato, Bovis, Taminã e Japim. Apesar da dispersão, cada uma dessas localidades reconhece sua conexão com uma das quatro aldeias maiores.

Na BR-156, que liga as cidades de Oiapoque e Macapá, estão localizadas mais três aldeias Karipuna: a aldeia Piquiá, no Km 40, a aldeia Curipi, no Km 50, e a aldeia Estrela no Km 70. Esta estrada corta a área indígena do Uaçá justamente na região das cabeceiras dos rios Uaçá, Curipi, afluentes e da zona de reservas faunísticas, onde são realizadas expedições de caça e coleta de frutas silvestres e de onde se retira a madeira para construção de casas, barcos e canoas. Esta região sempre foi vítima de caça e pesca predatória, e com a abertura da BR-156 o acesso de invasores ficou ainda mais fácil. Há ainda, mais duas aldeias Karipuna situadas no rio Oiapoque: Ariramba, situada dentro da Área Indígena Galibi e, Kunanã, localizada na Área Indígena do Juminã. A paisagem natural dessas reservas é caracterizada pela presença de uma extensa bacia hidrográfica constituída pelos rios Oiapoque, Curipi, Urukauá, Uaçá e Cassiporé. Com exceção do rio Oiapoque, cuja nascente está fora e distante das reservas indígenas, a paisagem que caracteriza os alto e médio cursos dos demais rios é a florsta tropical de terra firme, de onde provém a madeira e a caça de que precisam esses povos. As agências que atuam entre os Karipuna, que atualmente contam 1.656 pessoas (Funai 1998), são a Funai, o Cimi e a FNS.

 

Palikur

 

Os Palikur, falantes de uma língua Aruak, estão localizados nos dois loados da fronteira Brasil-Guiana Francesa. A população em território brasileiro, estimada em 862 habitantes (Funai, 1998), eistribui-se em 10 aldeias (Kumenê, Flecha, Puwaytyket, Kamoywa, Tawary, Monge, Urubu) assentadas nos tesos que se levantam ao longo do rio Urucauá, afluente da margem direita do rio Uaçá.

Localizada no extremo-norte do Estado do Amapá, a bacia do rio Uaçá, compreende dois afluentes, o Curipi e o Urucauá. Das cabeceiras dos três rios até próximo ao curso médio a vegetação é de terra firme mas, a partir do curso médio seguindo em direção à foz, a vegetação muda e é tomada por campos alagados, entrecortados por terras mais elevadas que permitem a ocupação humana. Do lado francês, os Palikur vivem dentro do perímetro urbano de Caiena e Saint Georges de L´Oyapock, em bairros construídos pelo governo especialmente para abrigá-los, e em aldeias localizadas na margem esquerda do rio Oiapoque.

As terras ocupadas pelos Palikur fazem parte da Área Indígena do Uaçá e são contíguas à Área Indígena do Juminã (homologada pelo decreto s/N de 21 de maio de 1991). Além dos Palikur, muitos falam ou compreendem o patuá, utilizado como língua indígena pelos Karipuna e pelos Galibi-Marworno. Do lado brasileiro, a maioria dos jovens escolarizados e alguns homens falam o português. Na Guiana, por influência da escola francesa, quase todos falam o francês, com exceção dos mais velhos e de algumas mulheres.

As agências de contato que atuam entre os Palikur atualmente são a Funai, que possui um Posto Indígena na aldeia Kumenê e cujo chefe é um Palikur; a FNS, e a Secretaria de Educação do GEA. Durante cerca de 12 anos (1965 a 1977), um casal de missionários linguistas do Summer Institute Of Linguistics (SIL), trabalhou junto aos Palikur. Sua base foi a aldeia Kumenê, na qual, em meados da década de 1980, foi construída uma igreja filiada à Igreja Evangélica Assembléia de Deus. A maior concentração da população nesta aldeia deve-se ao grande número de pessoas convertida ao credo pentecostal.

 

Galibi

 

Os Galibi do Oiapoque - Galibi é a autodenominação de um grupo indígena que vive no Oiapoque e de outro que vive na Guiana Francesa, nos rios Maroni e Mana. Na Guiana Francesa eles se definem como Kaliña, tendo Galibi como designação genérica utilizada pelos europeus para se referir aos povos de fala Caribe do litoral das Guianas.

Os Galibi são poliglotas. Além de manterem parcialmente sua língua original, falam também o patauá, língua geral utilizada no contato com as outras etnias da região. Falam o português e usam esta língua na aldeia e para os contatos externos. Conhecem o francês, pelo menos os mais velhos que foram alfabetizados e educados nesta língua, e entendem um pouco do patuá holandês.

A aldeia São José dos Galibi permanece onde foi instalada em 1950, quando o grupo chegou na área. Localiza´se na margem direita do Oiapoque, logo abaixo da cidade de Saint Georges, em um trecho de terra firme cercado de roças familiares e mata. Atualmente a aldeia conta com sete casas, habitadas em média por duas pessoas. Muitos Galibi vivem fora da aldeia, nas cidades de Oiapoque, Macapá, Belém e Brasília. Os que habitam a cidade do Oiapoque, muitos deles funcionários públicos, sempre voltam à aldeia nos fins de semana e durante as férias. Os que habitam outras cidades visitam esporadicamente seus parentes. Apesar de um aumento demográfico, o número dos que permanentemente residem na aldeia tem diminuído: eram 38 em 1950, 28 em 1994 e 25 em 1999.

A aldeia São José dos Galibi é também a sede do PI Galibi. Há um chefe de posto da Funai que é um índio Karipuna da aldeia de Santa Isabel e que também é enfermeiro. O líder da comunidade, Geraldo Lod, tem mantido uma atitude de autonomia mas de bom relacionamento com a Funai. Ele escolhe e avalia os funcionários da aldeia que hoje são apenas o chefe de posto e o professor. Participa das assembléias dos Povos Indígenas do Uaçá e de movimentos coletivos reivindicatórios.

As terras ocupadas pelos Galibi correspondem basicamente ao território onde se instalam em 1950. Constituem a Reserva Galibi com uma superfície de 6.689,928 hectares, conforme a portaria nº 1.369/E, de 24 de agosto de 1962, e homologada em 1982 (Diário Oficial da União de 22 de novembro de 1982).

 

Galibi Marworno

 

A denominação Galibi Marworno, hoje assumida pelos índios do rio Uaçá, revela uma população heterogênea, composta por descendentes de povos Caribe e Aruaque (Galibi, Maruane e Aruã), antigos habitantes da Guiana Francesa, sul do Amapá e bacia do Uaçá. Um certo número de moradores, por outro lado, é descendente de regionais e de imigrantes não-índios que se casaram com índias do Uaçá.

Os índios, até pouco tempo atrás, não se auto-denominavam desta forma. Eles se identificavam como "do Uaçá" na época em que viviam dispersos em grupos locais, nas ilhas do Alto Uaçá. Mais tarde, a partir do final de década de 40, na época do SPI (Serviço de Proteção ao Índio), quando instalados no Village Sainte Marie em Kumarumã, passaram a se identificar, em conjunto, como Galibi e, mais recentemente, orientados pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e com a autorização do ex-chefe Manoel Floriano Marcial, como Galibi-Marworno, se diferenciando assim dos Galibi de Oiapoque.

A língua dos Galibi-Maworno históricos entrou em desuso há pelo menos 100 anos, mas um número expressivo de palavras, especialmente referentes à fauna e avifauna, continuam sendo utilizadas. Em alguns cantos xamânicos, por exemplo, é possível verificar trechos em "língua antiga".

Orientados pelo SPI, os Galibi-Marworno vivem, desde o final dos anos 40, concentrados em uma única aldeia, Kumarumã, na margem esquerda do uaçá. Essa "união" é considerada, pelo menos até hoje, motivo de orgulho. As terras ocupadas pelos Galibi-Marworno fazem parte da Area Indígena do Uaçá, com uma superfície de 41.164,036 hectares, homologada pelo Decreto nº 298 (Diário Oficial da União, 30 de outubro de 1997).

Na década de 70, tendo em vista as reivindicações pela demarcação da terra e da luta política para diminuir os danos da Rodovia BR-156 dentro da área indígena, lançou-se mão da designação "Povos Indígenas do Oaipoque". Posteriormente, em 1991, foi criada a Associação dos Povos Indígenas do Oaipoque (Apio), para representar todas as etnias desta região. Assim como os Karipuna, os Galibi elegeram vereadores, em mandatos sucessivos, na Câmara de Vereadores de Oiapoque e, em 1996, o índio João Neves foi eleito prefeito do município de Oiapoque. As agências que atuam entre os Galibi-Marworno são a Funai, a FNS e a Secretaria de Educação do GERA. O Cimi, por sua vez, orienta programas de educação em kheuol (criolo) além das atividades religiosas. Desde 1998 também atuam na aldeia um casal de missionários evangélicos da Missão Novas Tribos do Brasil.

A população Galibi-Marworno está aumentando significativamente nos últimos anos, e conta com 1631 pessoas, sendo 1509 de Kumarumã, 34 de Tukay e 88 de Uahá (Funai, 1998).

 


 Referências:

Texto elaborado por Edgar Rodrigues.

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7097 Comentários

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